As câmeras estão voltadas para a Abadia de Westminster pois um casamento mexe com o imaginário dos paparazzi de plantão.
Estima-se que dois bilhões de pessoas em todo mundo viram a união do Príncipe William ,herdeiro do trono da Grã- Bretanha, e de Catherine Elizabeth Middleton, que aconteceu na última sexta-feira, dia 29 de abril, em Londres.
Como não poderia ser diferente de qualquer evento que envolve celebridades, “Show e Circo “ midiático foi armado. A imprensa tentava adivinhar qual seria o modelo do vestido da noiva, como seriam os docinhos do casamento e outras banalidades, fatos que ela , a imprensa, tratou como algo essencial para a sociedade em geral.
Um dia antes da cerimonia, o jornal “The Sun” ,que se orgulha por ter sido o primeiro a divulgar uma fotografia da futura princesa, lançou uma aposta, a saber, quem seria o primeiro convidado a chorar no casamento real. E os jornalistas ofereceram opções como a mãe da noiva, Elton John, que sempre chora em cerimônias na Abadia ou Tony Blair ou Gordon Brown que não foram convidados para o evento.
O casamento foi um espetáculo com direito a transmissão ao vivo pela internet e pela TV, participações especiais de consultores de moda e etiqueta, presença maciça de populares que não tinham nada a ver com o assunto. E os jornalistas não deixavam de exaltar as figuras de William e Kate.
Diante de tanto sensacionalismo e exibicionismo, será que a união dos noivos sobreviverá a uma mídia que sempre clamará por notícias sobre os dois como se fez para os pais do noivo? Para a mídia, Kate não se casou apenas com o Príncipe William, mas com todo e qualquer mecanismo midiático também. Os jornalistas, os repórteres, os caçadores de notícias serão os súditos das realeza que seguram câmeras fotográficas e microfones nas mãos em espera de algo espetacular.
Está na hora de pensarmos sobre o papel do jornalismo como algo sério e capaz de fazer com que criemos uma consciência crítica sobre os fatos que ocorrem ao nosso redor. Pão e circo cabem exatamente dentro do contexto do casamento real: somos alimentados por imagens, fantasias, sonhos, contos de fada e, ao mesmo tempo, nos entretemos diante da TV e da Internet, não nos cansando de ver o anel que a Kate recebeu do noivo e correndo até o camelô mais próximo para adquirir um ou indo à loja do shopping para não perdermos a chance de termos no nosso guarda-roupa um vestido qualquer que a noiva usou durante a repercussão do noivado.
Debord já falava da sociedade do espetáculo em que tudo vira razão para festa mas sabemos que isso é um mito. Enquanto o mundo se robotizava diante do evento ( incluindo os britânicos que invadiram Londres só para ver a noiva passar seguida pelo séquito real), gente morria nas guerras no Oriente Médio, políticos brasileiros dirigiam com carteira vencida, promotora pagava caro para um psicólogo ensinar a ela como simular os sintomas de um transtorno bipolar e a gasolina subia terrivelmente nas bombas dos postos de combustível. Ainda não sabemos se a mídia beijou os lábios das cinderelas , das belas adormecidas, para que elas se despertem para a vida real, no sentido verdadeiro da palavra. O jornalismo precisa ser o príncipe e não o bruxo que joga areia em nossos olhos e só permite que sonhemos com carruagens e noivas encantadas enquanto em torno de nós apenas os vilões se sobressaem.
Marcela Servano
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