terça-feira, 26 de abril de 2011

Onde está a arte?

Maria Aparecida Pinto
A Semana Santa é um acontecimento jornalístico, isto quer dizer que “vira notícia”. A arte dos tapetes de serragem - uma tradição centenária – atrai turistas de diversas cidades para as históricas cidades mineiras.
“A arte dos tapetes” diz a manchete. Onde está a arte? A matéria não trata da tradição de serragem, mas das apreciações dos turistas em seus depoimentos. As citações tão caras na literatura. A famosa intertextualidade.
No jornalismo, a técnica é conhecida como o “povo fala”. Artimanha antiga. Depoimentos são aspectos históricos no jornalismo, sejam falas de “experts” ou falas ilustrativas de “gente comum”. Onde está arte elucidada na manchete? Onde se encontra o jornalismo?
A arte atraiu 25 mil pessoas nesta Semana Santa à cidade de Ouro Preto. Mas, trata-se de uma arte pressuposta. Já existente e clara na mente de todos, assim como o fato de Realengo que a matéria retoma enfaticamente: tradição e atualidade? Assim como os cordéis? A tradição é a atualidade para o jornalismo. Faz se necessário questionar o que se elucida e não se constrói.
Contrariando o impresso, jornais televisivos abordam satisfatoriamente a Semana Santa ao compararem as implicações do evento para as diversas religiões. O estado é laico e o jornalismo deve aproximar se da isenção.
Assim como o jornalismo deve afastar se do paparazzi de certos casamentos reais.Claro que o jornalismo trata de fato do que é real.Mas o que é real para uma pode ser não real para o outro, assim como a arte trabalhada na matéria pode não ser arte para um outro leitor. É importante lembrar: o jornalismo é uma das principais ferramentas de construção da realidade. A realidade que todos vivenciam.
O cronista olhou para o texto recentemente concluído.
Onde está a arte?
A arte encontra se na estrutura.
Crônica inspirada na matéria:
“Arte nas ladeiras de Ouro Preto” de Pedro Rotterdan veiculada no caderno Minas do jornal Hoje em Dia de 25 de abril de 2011.

Um comentário:

  1. Na Praça Tiradentes e na Rua São José - Arte e denúncia, semiótica e publicidade

    De fato, os tapetes seculares de Ouro Preto no Domingo de Páscoa foram notícia em todos os meios de mídia. No Google Images, as fotografias mostram a realeza deles. Na televisão, mostraram o ato de fazer, a participação dos nativos e dos não nativos ( incluindo os gringos), a evolução dos mesmos ( no início eram feitos de flores) e até os impressos falaram de sua beleza e de sua exuberância.
    Bem, saí pelas ruas de Ouro Preto com uma câmera na mão e resolvi fotografar apenas as palavras estampadas nos mesmos e a ideologia de quem os fez. Lá na democrática Praça Tiradentes, que viu uma invasão de políticos e de pessoas insatisfeitas com os políticos, havia um tapete muito simples com duas palavras apenas: Jesus e Liberdade. Jesus me parecia um clamor, uma oração mas Liberdade me suscitou muitos outros sentimentos. Era um grito em prol da liberdade de ir e vir já que mesmo no Domingo de Páscoa, quando em todos os anos anteriores ali se celebrava um culto, fomos privados disso. A palavra "liberdade" estava cercada, presa por grades e palcos gradeados enquanto que o nosso museu da Inconfidência jazia esquecido e apenas relembrado pela bandeira de Minas Gerais que ironicamente clamava pela liberdade, mesmo que tarde. Ali havia um lamento de um ouropretano revoltado, deixando sua mensagem de estupor diante de tudo que o povo vive no país e na Praça em questão no dia 21 de abril e em outras datas cívicas.
    Lá na Rua São José, em meio a um batalhão de bolinhas de sabão e uma música infantil, se estendia um tapete com o nome das crianças chacinadas em Realengo mas em letras maiores estava o do assassino, mensagem explícita de que ele também foi vítima do meio em que vivia. Vi e fotografei e meditei a respeito.
    De fato, Cida, tapetes de rua em Ouro Preto deixaram de ser apenas arte mas se tornaram meios de criticar, denunciar ou propor soluções.

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