quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Caro amigo Jornalismo

Maria Aparecida Pinto

Encontram-se todos sentados em uma mesa de bar, o Direito, o Bom Senso, a História e o Jornalismo. Pode-se afirmar que se trata de um happy hour depois das jornadas.
- Por favor, uma porção de fritas e cerveja.

- E você, Jornalismo, o que deseja?

- Não. Não posso mais. Estou tentando mudar velhos estereótipos.

- Vai ser difícil - afirma o Bom Senso com um sorriso malicioso.

- Eu que o diga – completa a História. Quando passo todos se curvam e clamam: Estória, estória!

- Há o direito de expressão.

-Sabemos.

O garçom se aproxima e pergunta se a televisão pode ser ligada. Todos respondem positivamente.

“Acompanhe como foi a...”

Biiiiiiiii...

- Acompanhe o quê? Esse caminhão não colaborou, hein? - indaga o Bom Senso.

- É verdade. Mas podemos acompanhar e inferir o do que se trata – ameniza a História.

Segue, então, uma narração que descreve, por horas a fio, a entrada de participantes, a saída de participantes, as locuções repletas de adjetivação, as jogadas sensacionais compostas por lances e dribles, além dos variados passes. A sequência de fatos é relatada minuto a minuto com muita dinamicidade.

- Gente que emocionante! E eu nem me toquei que hoje é quarta.

- Ai História. O que se pode fazer? - lamuria o Bom Senso.

- Fugir como fez o nosso caro amigo Jornalismo – arremata o Direito.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cinco por cento de informação

Maria Aparecida Pinto
“O universo em expansão: um tipo de energia afasta as galáxias. Mas, o que sabemos é apenas cinco por cento do que ocorre no universo.”
Enquanto alguns olham para o ceu e nos dizem o que se passa, outros podem ligar a TV e olhar em linha reta para outros astros ou outras estrelas. Podem contemplar outros ceus inesperados e impassíveis que cobrem as noticias de um aqui e de um lá.
Um lá que possui lixeiras que cantam, agradecem e aplaudem. Um lá londrino, em que se vigora a narrativa jornalística distinta em forma e em entonação. Um tipo de energia afasta as galáxias, mas as notícias continuam a remendar o mundo e a constituir um ceu (de cinco por cento).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Peça, hoje mesmo, seu dinheiro de volta

Maria Aparecida Pinto

Gabriel espera pacientemente o ônibus. “Que dia claro e parado”, ele pensa com seus botões e alfinetes. No ponto, há pessoas conhecidas, apressadas, divagadoras, ranzinzas, solidárias e por aí se tece um rol sem fim.

Mas, um sujeito faz-se notar na multidão. Brada, dá pinotes e quase tem o que se pode chamar de “crise de nervos”. Gabriel não é médico, mas isto não quer dizer que não possa conjecturar em patologia alheia.

“Estão a rir se de mim. Não podem ter a audácia. Eles sabem quem sou eu? Sabem que é por mim que aquilo ainda se move? Estão de brincadeira! Mas, eles pegaram o peixe errado. A se pegaram...”

Todos riem freneticamente. Não só das construções gramaticais e semânticas desenvolvidas pelo cidadão, mas do sentido genérico da situação. Teatro ao ar livre sempre comove.

Gabriel, ao contrário, está comovido com dramalhão próprio e não se presta a sorrir diante da indignação do sujeito. “Ônibus maligno. Como pode fazer hora com a minha cara?”

Surge, enfim o veículo de transporte coletivo em toda a sua glória. E todos esquecem a cena do ponto. O jovem, então, longe do turbilhão das ruas... Dentro do turbilhão do coletivo, lê seu jornal.

Inesperadamente, a cena ganha vida outra vez:

“Estão a rir se de mim. Não podem ter a audácia. Eles sabem quem sou eu? Sabem que é por mim que aquilo ainda se move? Estão de brincadeira! Mas, eles pegaram o peixe errado. A se pegaram...”

Nosso protagonista dá um show e ultrapassa o diálogo consciencioso de botões e alfinetes para a exaustão de uma torrente de indignação e auto senso de justiça.

Mas o que teria despertado nosso cordeiro?

“Como pude ser enganado por uma manchete de jornal. Li a matéria toda e a informação presente na manchete só consta na manchete. Inadmissível. Não humano.”

Diante de tal afronta, um senhor de bengala e chapéu do qual não se vê a face, mas se escuta em bom e altos som sua voz marcante e melódica, aproveita-se da situação e grita:

_ Peça, hoje mesmo, seu dinheiro de volta!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A locomotiva que é o jornalismo

Um telejornal e seus vagões

Maria Aparecida Pinto

Glória senta-se na sala e esquece que o tempo é tempo. Deixa-se levar pelas viagens audiovisuais da programação que antecipa o telejornal. Mas como boa máquina locomotiva apita-se a sirene e todos os passageiros entram, no início, fazendo grande algazarra para, depois, tomarem tenência em seus assentos previamente estabelecidos.
Glória levanta-se e olha a sua volta: não há nenhum lugar vazio. Todos embarcaram. Todos são destino.

E o trem parte. No início, há aquele bloco de adeus. Aquele vagão que se avista na curva. Aquele lenço branco de partida acenado de forma repetitiva e singular. Parte-se lentamente. Pode-se partir em blocos. A locomotiva passa por caminhos sinuosos e por poucas linhas retas. Florestas densas são atravessadas e pode-se, até, cortar mares. Tudo sem sair dos trilhos.

Então, se fala de assunto variado, no primeiro vagão: dos quilômetros percorridos em busca de assistência médica pública, dos acidentes nas estradas cariocas e paulistas, dos motoristas embriagados, dos motoristas que não dormem, de outras locomotivas em países próximos, de desastres naturais e de desabrigados, das mortes e de ferimentos graves como consequências. O tempo voa e o primeiro vagão passa. Não há mais a lentidão ou a expectativa inicial.

Agora, a locomotiva corre. E Glória observa, com dificuldade, o outro vagão (outro bloco). Neste, há senhores bem vestidos falando em línguas distintas. Parecem desconhecer a existência de outros vagões e até mesmo a existência da locomotiva.
Sentados em suas poltronas de luxo vão percorrendo distâncias pairando no ar. Nobres cavalheiros de tempos de outrora.

E a locomotiva corre. Novos passageiros sobem. Com relação aos que se retiram não se pode ver-lhes os rostos. Assim como não se pode conversar com o maquinista. É preciso manter o trem nos trilhos e sempre a correr. Não se pode confiar nas locomotivas que se atrasam, nos trem que não chegam, nas notícias dadas por qualquer fonte.
Pontualidade das locomotivas. Correr atrás do trem. Não esperar os apitos de aviso. A locomotiva que é o jornalismo.

Glória cansou de brincar com as metáforas, com o jogo de palavras e de cenas. Descer da locomotiva não é tão fácil. “Todos a bordo” é um imperativo da informação. Indica-se onde embarcar, mas o desembarque depende do passageiro e do seu tipo de passagem.
A passagem de Glória é do tipo vip: com um toque ela desce do trem. Esquece-se da locomotiva, dos outros passageiros e caminha para o terreiro:
- Olha, não é que a previsão do tempo acertou!

domingo, 18 de setembro de 2011

Lógica

Maria Aparecida Pinto

Juninho “chega em casa” todo alegre e grita:

_ Vovô, vovô! Sou o novo presidente de turma!

_ Que bom meu filho! Como foi isso?

_ Terminada a votação...Foi uma surpresa. Venci vovô. Não é ótimo?

_ Claro Júnior, parabéns. E como seus coleguinhas reagiram?

_ Eles parabenizaram-me. Também disseram que sou o primeiro presidente de turma oriundo do Bairro Z. Que sou um orgulho para...

_ O que mais o meu netinho querido teve que escutar?

_ Como assim, vô?

_ Sabe qual é problema, meu filho? Às vezes não se considera a astúcia alheia e a ingenuidade é o que se sobressai. É verdade que, ocasionalmente, as pessoas são realmente ingênuas e inocentes. Mas, isto é fato raro.

_ O problema maior acontece quando se afirma que em tal lugar as pessoas já nascem sorrindo ou cantando porque há um pressuposto de que há outro lugar em que se nasce lamuriando e envolto em dor. Lógica igual a esta pode ser aplicada quando se afirma que há países saudáveis. Primeiros e segundos países, assim como mundos? Pobres dos que não são tão saudáveis...

_ Vovô, já tive aula de geografia e de filosofia, hoje. Este blá blá que não entendo muito bem, mas dizem que é pessimismo puro...

_ O quê?

_ Ontem saiu no jornal da escola que o pessimismo contemporâneo está modificando o cotidiano do homem médio. Ufa! Quase não consigo falar sem parar. Haja fôlego!

_ O quê?

_ Cuidado, vô. O senhor quase caiu para trás.

_ Um especialista deu uma entrevista à galera do jornal.

_ Parabéns Júnior, pela sua vitória.

_ Muito obrigado, vovô.

sábado, 10 de setembro de 2011

Bolor

Maria Aparecida Pinto

Mal o mês começara e uma abelha já havia pousado na janela e feito a criança chorar. Zumbindo incessantemente. Aquele som, monossilábico e gutural não poderia ser. Mas se tratava de um fluxo premente de angústia e de fuga da tranquilidade pueril. Acabara-se o tempo das flores em abundância.Em bom brasileiro o tempo das vacas magras aproximava-se ligeiramente.

Não pudera correr para o mercado para abastecer o velho cômodo. Aquela porta sempre trancada que não possuía uma localização exata: uma vez ao lado da escada e em outras debaixo dela. Pode-se dizer, poeticamente, em confluência de quadros ou pode-se afirmar que se trata de uma bela fotografia digna para servir como descanso de tela.

Descobriu-se ao longe, uma folha de jornal dispersa. Datava-se de tempos remotos. “Tempos de outrora...”- diria o olhar que se dirigia ao bebê. Olhar distante afugentado da contemplação pela sirene estridente e caricatural.
Não há mais nada a ser feito, por um lado. Mas, por outro, alguém sempre tem que fazer alguma coisa. Sentar-se e olhar aquele jornal. Amarelo e embolorado, quebradiço. Com grande sobressalto levantou-se da cadeira e descruzou os braços anteriormente impassíveis. Uma ruga de espanto?

Correu até a dispensa. O quarto fotográfico. Não seria melhor fotogênico? Abriu a porta aos solavancos e iniciou um processo de procura. Não havia muito que procurar, tudo estava vazio. Nas gavetas, nos potes, nas embalagens específicas... Não se poderia encontrar mais do que vestígios do tempo.

Ao se aproximar da porta, tropeçou em algo. Era um pão duro como uma rocha. Dando voltas na pedra diante da luz natural descobriu um mofo. O jornal era realmente de hoje.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Tenda

Maria Aparecida Pinto

E multicolorida aparece inflando-se de ar e de vento. O vento se esvai e fica somente o ar. Aquele mesmo ar que apontou figuras e espiou portas é o mesmo ar que faz ruflar a imensa tenda.

O cenário é de domingo e tarde de sol, mas pode ser de céu nublado com possibilidades de chuvas e risco de trovoadas. Na verdade, quem garante não se encontra no recinto. E o mundo acaba tornando-se o mundo das notícias. O mundo das opiniões e ameaças de notícias. O mundo das quedas e conquistas já anunciadas sempre como um gancho. Como um alfinete, à moda antiga.

Mas se trata de uma nova versão. Em que os ventos uivantes continuam a exercer o seu papel... O de encher tendas... O de reconhecer multidões convulsas... O de dividir aliados e não aliados e avaliar...

O mais impressionante é o barulho do inflar-se. Aquele sopro de exaustor de máquina. E quando se olha em volta, não é que todos são crianças esperando as boas novas?

- Ei moço, tem pipoca?