sábado, 10 de setembro de 2011

Bolor

Maria Aparecida Pinto

Mal o mês começara e uma abelha já havia pousado na janela e feito a criança chorar. Zumbindo incessantemente. Aquele som, monossilábico e gutural não poderia ser. Mas se tratava de um fluxo premente de angústia e de fuga da tranquilidade pueril. Acabara-se o tempo das flores em abundância.Em bom brasileiro o tempo das vacas magras aproximava-se ligeiramente.

Não pudera correr para o mercado para abastecer o velho cômodo. Aquela porta sempre trancada que não possuía uma localização exata: uma vez ao lado da escada e em outras debaixo dela. Pode-se dizer, poeticamente, em confluência de quadros ou pode-se afirmar que se trata de uma bela fotografia digna para servir como descanso de tela.

Descobriu-se ao longe, uma folha de jornal dispersa. Datava-se de tempos remotos. “Tempos de outrora...”- diria o olhar que se dirigia ao bebê. Olhar distante afugentado da contemplação pela sirene estridente e caricatural.
Não há mais nada a ser feito, por um lado. Mas, por outro, alguém sempre tem que fazer alguma coisa. Sentar-se e olhar aquele jornal. Amarelo e embolorado, quebradiço. Com grande sobressalto levantou-se da cadeira e descruzou os braços anteriormente impassíveis. Uma ruga de espanto?

Correu até a dispensa. O quarto fotográfico. Não seria melhor fotogênico? Abriu a porta aos solavancos e iniciou um processo de procura. Não havia muito que procurar, tudo estava vazio. Nas gavetas, nos potes, nas embalagens específicas... Não se poderia encontrar mais do que vestígios do tempo.

Ao se aproximar da porta, tropeçou em algo. Era um pão duro como uma rocha. Dando voltas na pedra diante da luz natural descobriu um mofo. O jornal era realmente de hoje.

Nenhum comentário:

Postar um comentário