Maria Aparecida Pinto
Gabriel espera pacientemente o ônibus. “Que dia claro e parado”, ele pensa com seus botões e alfinetes. No ponto, há pessoas conhecidas, apressadas, divagadoras, ranzinzas, solidárias e por aí se tece um rol sem fim.
Mas, um sujeito faz-se notar na multidão. Brada, dá pinotes e quase tem o que se pode chamar de “crise de nervos”. Gabriel não é médico, mas isto não quer dizer que não possa conjecturar em patologia alheia.
“Estão a rir se de mim. Não podem ter a audácia. Eles sabem quem sou eu? Sabem que é por mim que aquilo ainda se move? Estão de brincadeira! Mas, eles pegaram o peixe errado. A se pegaram...”
Todos riem freneticamente. Não só das construções gramaticais e semânticas desenvolvidas pelo cidadão, mas do sentido genérico da situação. Teatro ao ar livre sempre comove.
Gabriel, ao contrário, está comovido com dramalhão próprio e não se presta a sorrir diante da indignação do sujeito. “Ônibus maligno. Como pode fazer hora com a minha cara?”
Surge, enfim o veículo de transporte coletivo em toda a sua glória. E todos esquecem a cena do ponto. O jovem, então, longe do turbilhão das ruas... Dentro do turbilhão do coletivo, lê seu jornal.
Inesperadamente, a cena ganha vida outra vez:
“Estão a rir se de mim. Não podem ter a audácia. Eles sabem quem sou eu? Sabem que é por mim que aquilo ainda se move? Estão de brincadeira! Mas, eles pegaram o peixe errado. A se pegaram...”
Nosso protagonista dá um show e ultrapassa o diálogo consciencioso de botões e alfinetes para a exaustão de uma torrente de indignação e auto senso de justiça.
Mas o que teria despertado nosso cordeiro?
“Como pude ser enganado por uma manchete de jornal. Li a matéria toda e a informação presente na manchete só consta na manchete. Inadmissível. Não humano.”
Diante de tal afronta, um senhor de bengala e chapéu do qual não se vê a face, mas se escuta em bom e altos som sua voz marcante e melódica, aproveita-se da situação e grita:
_ Peça, hoje mesmo, seu dinheiro de volta!
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