Um telejornal e seus vagões
Maria Aparecida Pinto
Glória senta-se na sala e esquece que o tempo é tempo. Deixa-se levar pelas viagens audiovisuais da programação que antecipa o telejornal. Mas como boa máquina locomotiva apita-se a sirene e todos os passageiros entram, no início, fazendo grande algazarra para, depois, tomarem tenência em seus assentos previamente estabelecidos.
Glória levanta-se e olha a sua volta: não há nenhum lugar vazio. Todos embarcaram. Todos são destino.
E o trem parte. No início, há aquele bloco de adeus. Aquele vagão que se avista na curva. Aquele lenço branco de partida acenado de forma repetitiva e singular. Parte-se lentamente. Pode-se partir em blocos. A locomotiva passa por caminhos sinuosos e por poucas linhas retas. Florestas densas são atravessadas e pode-se, até, cortar mares. Tudo sem sair dos trilhos.
Então, se fala de assunto variado, no primeiro vagão: dos quilômetros percorridos em busca de assistência médica pública, dos acidentes nas estradas cariocas e paulistas, dos motoristas embriagados, dos motoristas que não dormem, de outras locomotivas em países próximos, de desastres naturais e de desabrigados, das mortes e de ferimentos graves como consequências. O tempo voa e o primeiro vagão passa. Não há mais a lentidão ou a expectativa inicial.
Agora, a locomotiva corre. E Glória observa, com dificuldade, o outro vagão (outro bloco). Neste, há senhores bem vestidos falando em línguas distintas. Parecem desconhecer a existência de outros vagões e até mesmo a existência da locomotiva.
Sentados em suas poltronas de luxo vão percorrendo distâncias pairando no ar. Nobres cavalheiros de tempos de outrora.
E a locomotiva corre. Novos passageiros sobem. Com relação aos que se retiram não se pode ver-lhes os rostos. Assim como não se pode conversar com o maquinista. É preciso manter o trem nos trilhos e sempre a correr. Não se pode confiar nas locomotivas que se atrasam, nos trem que não chegam, nas notícias dadas por qualquer fonte.
Pontualidade das locomotivas. Correr atrás do trem. Não esperar os apitos de aviso. A locomotiva que é o jornalismo.
Glória cansou de brincar com as metáforas, com o jogo de palavras e de cenas. Descer da locomotiva não é tão fácil. “Todos a bordo” é um imperativo da informação. Indica-se onde embarcar, mas o desembarque depende do passageiro e do seu tipo de passagem.
A passagem de Glória é do tipo vip: com um toque ela desce do trem. Esquece-se da locomotiva, dos outros passageiros e caminha para o terreiro:
- Olha, não é que a previsão do tempo acertou!
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