Maria Aparecida Pinto
O jovem, que espera estar com o futuro nas mãos e renega seu passado, entra na sala e se depara com a claridade provocada pela quantidade de janelas abertas. Senta-se. Ao longe,se escuta, de forma estafante, o som de um noticiário que narra as últimas catástrofes como um timoneiro antigo e experiente. Como fala com vontade e desenvoltura. Pode falar de tudo e de todos a todo e em qualquer momento.
A pequena porta fria abre-se:
- O doutor vai atendê-lo em dez minutos.
Dez minutos. Quanto tempo! A vida corre lá fora em manchetes de jornais e eu resisto a dez minutos de espera.
Não chegara cedo, estava na hora como sempre.
A luz é ofuscada pela doçura de uma senhora. Poderia carregar os filhos de seus netos e relembrar (ou melhor, inventar coisas sobre) a infância.
Senta-se perto do jovem. Olha-o com boa vontade ou apenas com um sorriso de tartaruga e afirma com convicção:
- Bom Dia!
- Bom Dia.
Caminhando nas ruas o jovem se questionava o que a senhora quis dizer com aquela saudação. BOM DIA! Não era na verdade uma saudação. Era um comprimento, um gesto de educação, de polidez.
Como havia sido imaturo e frio com tal criatura inofensiva e boa. O som do noticiário ao fundo havia lhe confundido as ideias? O que há por trás disto, daquilo... Meu Deus! No fim das contas, não é nada e não se sabe mais de nada. Não se confia mais em nada. Fulano disse isto para dizer aquilo e... Aí se constrói toda uma trama de teorias e de conjecturas... Próprias... Jornalísticas.
Bom Dia!? Sorri, maliciosamente, a senhora, depois que o jovem sai da sala de espera. Repete com brandura, Bom Dia! E o mundo está sendo destruído lá fora. Abre a bolsa e afaga seu radinho de pilha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário