quarta-feira, 6 de julho de 2011

O mito da morte

Maria Aparecida Pinto

_ Oi, pai. Seu Calisto saiu no jornal.

_ Ai, meu Deus! Meu pai morreu. Vamos Pedro, vamos, mas para aonde? Eu não sei o que fazer meu Deus do céu, ontem mesmo pai estava aqui no churrasco e agora se encontra desfalecido.

_ Ai... O que faço? Agora o que faço?

_ José, mas que alvoroço é esse?

_ Pai morreu.

_ Morreu como? Onde? Por quê? Com quais desdobramentos? Quais são as fontes?

_ Não sei Carola, mas está no jornal.

_ No jornal?

_ Olhe há uma linha do tempo, um infográfico, um caderno especial...

_ Meu Deus ele realmente deve estar morto. Quando será o sepultamento?

_ Não diz.

_ Como assim não diz?

_ Mas é sabido que é grande a comoção popular. Mas é sabido que o cortejo fúnebre será transmitido pela TV local. Mas é sabido que se receberam 100 coroas de flores e que se forma fila enorme de condolências em frente à residência do presidente da associação de moradores de bairro que há a cinco anos presta grandes serviços à comunidade.

_ Pai, pai, quantas pessoas estão na porta de casa!

_ Eu não posso crer.

_ Bom dia a todos, o que está acontecendo? É muito barulho, aí fora.

_ Pai!

_ Vô!

_ Senhor Mauricio, mas como? O senhor não estava morto?

_ Morto? Eu? Como?

_ Olhe o jornal.

_ Ahh... Renunciei ontem, já tarde da noite.

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