quinta-feira, 21 de abril de 2011

Além dos ovos de Páscoa

Maria Aparecida Pinto

_O jornalismo também é um exercício da história. No contexto, em que nos encontramos “intertextualizar” é preciso - dizia o professor de história de Pedro.

O menino chegou em casa pronto para aproveitar dois dias de feriado.Já não era tão menino, já podia ler os jornais.Não queria saber dos tipos de chocolate que “bombariam” na Páscoa (estas reportagens especiais de Páscoa, de Ano Novo, de Natal, de Volta às Aulas que ocupam metade dos jornais televisivos, impressos...).
Pedro desejava “intertextualizar” como dissera seu mestre. A figura do mestre. A aprendizagem é libertadora.

Abriu o jornal: “TRÊS INCONFIDENTES AINDA SERÃO SEPULTADOS EM OURO PRETO, MINAS GERAIS”. Isto é história e jornalismo. A matéria falava de toda a trajetória de Tiradentes, das relações econômicas, sociais e culturais que o tornaram “ícone de liberdade”. A figura barbuda de túnica branca que sacrifica se por um interesse maior. O grupo de Tiradentes cada um com sua punição social respectiva.

A curiosidade assombrou Pedro: derrama, traição, inconfidência e liberdade. Mas havia questionamentos sobre o mito da Inconfidência Mineira, da “Liberdade ainda que tardia”.
O jornal não se permitia questionar a história. “Em Ouro Preto, também reina o silêncio”. O não dito diz muito. Corpos insepultos dizem mais ainda.

As regras de conduta dos jornalistas e os fatores que tornam o cotidiano notícia são alheios ao Pedro, mas ele sabe que o número mais vendido de ovos de Páscoa, a quantidade de bacalhau que as pessoas compram na feira e as receitas culinárias concedidas pelos passantes à reportagem podem ser uma forma de silêncio.



A crônica foi inspirada pela reportagem "Um enterro com dois séculos de atraso" de Gustavo Werneck veiculada no jornal Estado de Minas de 3 de abril de 2011.

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